Você já colocou uma cerveja na geladeira, desistiu de beber e depois ficou na dúvida se poderia deixá-la fora da geladeira novamente? Ou ouviu aquela velha recomendação de que “cerveja que gela, esquenta e gela novamente fica choca”?
Essa é uma dúvida bastante comum entre os consumidores de cerveja. Mas será que a variação de temperatura realmente estraga a bebida?
A resposta é não. O simples fato de gelar uma cerveja fechada, deixá-la voltar à temperatura ambiente e depois refrigerá-la novamente não faz com que ela fique “choca”.
A história, porém, tem algumas nuances importantes.
O que acontece quando a cerveja esquenta?
A cerveja é uma bebida relativamente estável quando armazenada corretamente. Como qualquer alimento ou bebida, porém, ela sofre alterações químicas ao longo do tempo.
Temperaturas elevadas podem acelerar essas reações, contribuindo para o envelhecimento da cerveja e para mudanças em suas características sensoriais.
Por isso, existe uma diferença importante entre dizer que uma cerveja esquentou em temperatura ambiente e dizer que ela foi armazenada durante muito tempo em condições de calor.
Uma garrafa que ficou algumas horas fora da geladeira não se transforma automaticamente em uma cerveja deteriorada. Já uma cerveja mantida durante longos períodos em temperaturas elevadas pode perder frescor mais rapidamente.
Então posso gelar, tirar da geladeira e gelar novamente?
Pode!
Se a cerveja estiver fechada e tiver sido armazenada adequadamente, não há problema em refrigerá-la, retirá-la da geladeira, deixá-la voltar à temperatura ambiente (sem forçar colocando no sol, por exemplo) e colocá-la novamente para gelar depois.
Não existe um “choque térmico” que faça a cerveja ficar choca simplesmente porque ela passou de fria para quente e depois voltou a ser refrigerada.
Por isso, aquela recomendação de “nunca esquente uma cerveja que já foi gelada” não deve ser tratada como uma regra geral de conservação.
O mais importante é observar em quais condições ela foi submetida para voltar à temperatura ambiente.
Mas por que a temperatura é tão importante?
Porque calor e tempo podem acelerar o envelhecimento da cerveja.
Durante o armazenamento, acontecem reações químicas naturais que podem alterar aromas e sabores. Em temperaturas mais altas, essas reações tendem a ocorrer mais rapidamente.
Com o passar do tempo, uma cerveja armazenada inadequadamente pode apresentar características diferentes das que tinha quando foi produzida: menos frescor, alterações aromáticas e sabores associados ao envelhecimento ou à oxidação.
Por isso, quando falamos em conservação, é muito mais importante evitar calor excessivo e prolongado do que se preocupar com uma simples ida e volta da geladeira.
E a luz? Ela também pode prejudicar a cerveja
Outro fator importante, e muitas vezes mais relevante do que a própria variação de temperatura, é a exposição à luz.
A luz, especialmente a radiação ultravioleta, pode reagir com compostos provenientes do lúpulo e provocar alterações no aroma da cerveja. Esse processo é conhecido como lightstruck e é responsável pelo odor desagradável que muitas pessoas associam ao chamado “skunk” ou “cerveja com cheiro de gambá”.
É por isso que a embalagem também faz diferença. Garrafas escuras oferecem mais proteção contra a luz do que garrafas transparentes ou verdes.
Afinal, o que significa “cerveja choca”?
“Cerveja choca” é uma expressão popular e não corresponde a um único defeito técnico da bebida.
No dia a dia, o termo pode ser usado para descrever uma cerveja que perdeu gás, frescor ou apresentou alterações de aroma e sabor.
Uma cerveja pode, por exemplo, perder parte da carbonatação depois de aberta. Também pode sofrer oxidação ao longo do tempo, especialmente quando há contato com oxigênio.
A oxidação pode provocar alterações sensoriais e deixar a cerveja com características que não estavam presentes quando ela estava fresca.
Falei sobre Como armazenar cerveja corretamente aqui
Por isso, dizer simplesmente que uma cerveja ficou “choca” não explica necessariamente qual processo aconteceu com ela.
E se a cerveja estiver muito gelada?
Existe outro detalhe interessante: cerveja muito gelada também pode prejudicar a experiência de consumo.
Temperaturas próximas do congelamento podem reduzir a percepção dos aromas e sabores. Como o frio intenso diminui a volatilidade dos compostos aromáticos e interfere na percepção sensorial, uma cerveja pode parecer menos aromática e menos expressiva.
Isso não significa que a cerveja tenha estragado. É uma questão de temperatura de serviço.
Cada estilo possui características que podem ser melhor percebidas dentro de determinadas faixas de temperatura. Uma cerveja complexa, por exemplo, pode revelar mais aromas e sabores quando não está excessivamente gelada.
Falei sobre a Temperatura ideal da cerveja aqui
E, se você colocou uma cerveja na geladeira e decidiu não consumi-la, não precisa se preocupar em deixá-la refrigerada para sempre.
Ela pode voltar ao armário, desde que seja armazenada em um local adequado, e ser refrigerada novamente quando chegar a hora de beber.
Então, cerveja gela, esquenta e gela de novo: pode?
Pode.
O simples ciclo de gelar → esquentar → gelar novamente não é suficiente para deixar uma cerveja “choca”.
O que merece atenção é a combinação de tempo, temperatura, luz, oxigênio e condições de armazenamento.
Portanto, da próxima vez que alguém disser que você estragou a cerveja porque tirou uma garrafa gelada da geladeira, já sabe: não é bem assim.
A cerveja não tem um “relógio térmico” que determina que, depois de gelada uma vez, ela nunca mais pode esquentar. 🍺
Fonte: Portal Uol


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